2/20/2009

Tu e Eu

Ó imensurável Eu que tanto queres! Esse Eu sem dono que te encantas. Esse Eu que já não é somente o teu e que não é Eu. Aquele Eu que há muito foge de Tu que sabes de todas as dores do mundo. Deste mundo de umbigos.
Ó tão complexa pessoa que passa por Eu despercebido! Não vês por ventura a dúvida do ser? Tu que és tão Eu... Eu que sou tão Tu. Quase sempre tão nós. Sabes Tu as dores de teu Eu? Segredos guardados, amarrados, engolidos, sofridos e aceitos. Aceitaste Tu então as fraquezas de Eu?
Tu que te conheces, que sonhas todos os sonhos do mundo, que carrega teu umbigo, não cansas, em algum momento, de seres tão só? Ó conhecimento ingrato! Conhecimento vão! Pois Tu que conheces a ti mesmo não conhecestes Eu. Pobre Eu que não conheces Tu.
Ó incompletude pagã que não se satisfaz! Satisfaria Tu? E Eu? Servir-te-ia Eu?
Ó incompletude divina que a Eu tanto inspira! Faça-te forte! Mais incompleta ainda ao ponto de querer Tu usar Eu. Usar-te-ia incompletude, Eu por amor?
Ó tão complexo Eu que tanto queres! Esse Eu de vontades, de desejos passageiros e vastas paixões. Esse Eu de música, poesia e máscaras que te encantas... Cantarias Tu uma canção? Far-te-ia versos? Disfarçaria Tu a face?
Percebes que Eu à Tu não pertence. Percebes que Tu não queres tanto Eu assim. Tu que és forte, de fala prepotente, conhecedor das eloqüências não poderias querer Eu. Eu que sounsimples, de fala rastejante e um tanto egoísta. Eu não quis saber de Tu.Não caberias Tu em Eu.
O que te resta? O que te importa se Tu já não olhas mais para Eu?
E Eu?
Foste embora, ó Eu desmerecido - pois Tu sabes quem és, Tu reconheces teu lugar- voltaste para casa, recitastes teu pronome sempre convicto de tua voz. E ainda dizes, ó Eu, que um dia as primeiras pessoas serão as ultimas... As ultimas.

1/31/2009

Vinte e Três


Eu não tenho idade
não tenho nome
sem vaidade
Sem fome.
Eu não acredito
não sei
não repito
dancei.
Danço mal
Danço como ninguém
Sou fatal
Mas sou do bem
Sou leve
Devagar
Sou breve
Mas posso ficar
Sou de vento
Sou de cor
Um momento
Por favor.
Sou alma
Desvirada
Pelo avesso
Sou menina
Desde sempre
Do começo.
Sou de ferro
E de pó
Sou poeira
Sou um nó.
Sou de brisa
Sou de morte
Sou um vento
Muito forte.
O sol
Lá bem longe
Si eu puder chegar
Do mundo
Faço morada
Remando por todo mar.
Mas eu não tenho idade
E posso ser breve
vaidade?
Sou pluma
De tão leve.

Gogó

A poesia me está em falta
Por isso escrevo
Tal coisa
Sem pé
Nem cabeça.
E ao meio termo
dou o nome de
pescoço.

1/03/2009

post secret #5

Foto e texto de Pipa Cavalcanti