2/10/2007

Dois sonetos Shekespearianos

Soneto 29


Quando malquisto da fortuna e do homem
Comigo a sós lamento o meu estado,
E atiro aos céus os ais que me consomem,
E olhando pra mim maldigo o fado;
Vendo outro ser mais rico de esperança,
Cobiçando o seu poder e os seus amigos,
Se desejo a arte de um, de outro a bonança,
Descontente dos sonhos mais antigos;
Se desprezado e cheio de amargura
Penso um momento em voz, logo, feliz,
Como as ave que abre as asas para a altura
Esqueço a lama que o meu ser maldiz:
Pois tão doce é lembrar o que valeis,
Que esta sorte não troco nem com reis.


Soneto 30
(embalada por uma inspiração Shekesperiana e dedicando este soneto às irmãs Bisos)

Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo o olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor supera,
lamentando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o ja chorado e já sofrido
Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso por um momento
Vão-se as penas e acaba o sofrimento.